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O Entremês de Jacobino

“O Entremês de Jacobino ou a Casa de Caloteiros e Ladrões” foi uma das primeiras peças a ser recolhida pelo grupo, em Novembro de 1974, tendo sido a primeira a ser representada, logo após a jornada por terras de Miranda. Do abonado filão de textos de Teatro Popular Mirandês, este impôs-se pela fertilidade do seu conteúdo simbólico e também por uma não menos úbere forma literária.

Estamos perante uma narrativa de patranhas e enganos, dividida em três momentos: o primeiro em que Jacobino, depois do chorrilho de mentiras que conta, acaba a burlar a família de Marçalo Lopes por obra da flauta maravilhosa

Basta que quando eu toco
Quantos me ouvem se encantam
Que ao som do meu instrumento
ainda que não queiram dançam.;

o segundo em que a acção é transportada para Lisboa onde, através do ardil do jogo de palavras, Jacobino e a família de Marçalo, acabam por ludibriar o comerciante Feliz Simão e também a justiça; e o terceiro em que, de volta à terra, a virtuosa família se dedica a burlar e enganar como forma de vida. O espectáculo termina com uma cena – o enfiar o barrete – que parecendo não ter ligação com as restantes (igualmente autónomas em termos de significado), poderá funcionar como um espaço aberto à reinterpretação, um epílogo simbólico de uma história intemporal em que uns são ludibriados pelos outros.

Marçalo
Pois senhor além da minha paga
Por favor lhe peço
Que me diga aí já
Uma rusga de mentiras.

Jacobino
Olhe senhor agora vou dizer verdades
E muito bem esclarecidas
E depois das verdades
Lhe direi as mentiras.

Ora diga-me o senhor
O senhor semeando trigo
Que espera colher?

Marçalo
Trigo!…

Jacobino
Pois o contrário aconteceu comigo
Porque semeando mostarda
Esperando colher mostarda
Que me havia de nascer?
Nasceram-me vinte burros
E vinte e uma albarda.

E olhe que isto são verdades
Que por muitos foram vistas
E também nasceu um galo
Que tem vinte e cinco asas
E tem trinta mil cristas.

Ainda lhe noto mais outra
Que tenho em minha casa
Um cachorrinho bravo
Que tem dezoito orelhas
Todas em volta do rabo.
E para mais se admirar
É filho duma cadela
Que tem pés como jumento
E chifres como vitela.Marçalo
Todas elas são grandes
Nem ele há quem creia nessas.

Jacobino
É verdade senhor
Ainda lhe digo mais outra
Que vi ontem um boi
Com trinta cabeças.

Marçalo
Entre tantas não disse uma
Que se possa acreditar
Pois para trinta cabeças
Não tem um boi lugar.

Jacobino
Eu vi senhor
Tinha cinco de cada lado
E doze na frente
E oito no rabo.

Marçalo
Basta … Basta … Está bem!

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