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Sete Luas

 

SINOPSE

A festa das sete luas ou uma outra maneira de dançar a cultura…Na dança celebra-se a vida, mas também a noite, o fantástico e o maravilhoso: invocam-se os mortos e esconjuram-se os vivos; encantam-se os vivos e encomendam-se os mortos.

Das luas, dizem os livros de ciência as suas fases, e com elas se conjugam as marés, fazendo contas aos dias que se enrolam nas suas ondas. Mas das luas sabe o povo também, para além dos crescentes e minguantes, os seres estranhos que despertam nos sonhos da sua memória: bruxas e lobisomens, fradinhos da mão furada misturados com diabos, e ainda olharapos e sereias, mais o rosto escondido de mouras encantadas. Cada qual com seu dom, cada qual com sua maldição: os segredos da noite ou as estrelas da morte, a magia das mãos e as almas do além, a espiral da loucura, a cegueira do encantamento, ou a luz da esperança que se acende no luar em que se enrolam os amantes.

Haverá especialistas das ciências do homem que façam o registo, a descrição e a anatomia destes sonhos e dos seus discursos, dos ritos em que se dizem e dos sentidos que encobrem. Não enjeitando esse trabalho, enraizamo-lo e prolongamo-lo na festa da cultura que nesses sonhos se exprime e com eles se entretece. E que assim se transforma na dança do tempo e dos tempos. Do espaço e dos passos. Dos quatro elementos e das sete luas:

Sete noites e uma estrela,
uma praça, sete ruas,
e uma moça à janela
à espera das sete luas.

Sete irmãs ela tivera,
todas sete se perderam,
e há sete anos que espera
o que então lhe prometeram:
-Sete luas vão passar
cada qual com seu segredo:
cada noite vais beijar
quem ao luar te faz medo.

– Rouba-lhe a lua e o jeito
no beijo que à lua te der.
Será o feitiço desfeito
E as tuas irmãs hás-de ter.

Uma lua vai passando,
manda nela a negra bruxa
formigando e segredando
como frade da Cartuxa.
– O que fazes à janela,
o que procuras no céu?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe a noite de breu.

Já lá vem a lua cheia
que o lobisomem conduz:
cinco pontas serpenteia
na encruzilhada da luz.
– O que fazes á janela
tão perdida do teu Norte?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe a estrela da morte.

Gárgulas à lua nova,
Já desfazem a fiada.
E há um sátiro que trova:
Fradinho da mão furada.
– O que fazes à janela
perdida dos teus irmãos?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe a força das mãos.

Diabo e almas penadas
em noite de beija-mão:
as harpas são dedilhadas
ao luar da perdição.
-O que fazes à janela
tão longe da tua mãe?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe as almas do além.

Sete noites e uma estrela,
uma praça, sete ruas,
e uma moça à janela
à espera das sete luas.

E a lua dança em espiral,
faz dos sonhos um farrapo:
na pele de um animal
surge um estranho olharapo.
– O que fazes à janela,
qual a tua desventura?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe a cor da loucura.

Também a lua marinha
os seus cabelos penteia:
por cinco pontas caminha
o desejo da sereia.
– O que fazes à janela
assim calando o lamento?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe o encantamento.

Dobrando os véus ao luar
Está a moça enamorada:
convida a noite a dançar
nas mãos da moura encantada.
– O que fazes à janela
com esse olhar de criança?
Deu-lhe um beijo e a donzela
roubou-lhe a luz da esperança.

Dançaram as sete luas,
sete estrelas se acenderam
e logo nas sete ruas
as sete irmãs apareceram.
– O que fazes à janela
Que tantos beijos consentes?
Beijou-as então a donzela
Deu-lhes os sete presentes.

Mais sete luas passaram,
sete príncipes vieram,
que as sete irmãs desposaram
e sete filhos tiveram.
Logo que a moça os benzeu
na praça das sete ruas
tornou-se estrela do céu
“Rainha das sete luas”

Paradela da Cortiça, Agosto de 2000
João Maria André

 

As sete figuras do Maravilhoso Popular que inspiraram o espectáculo:

Bruxa
Génio malfazejo, cujo pacto com o diabo, lhe dá poder de conhecer o futuro e de influenciar pessoas ou coisas, por intermédio de sortilégios, malefícios, feitiçarias ou outras artes mágicas. Untadas com sangue de criança, reúnem-se as bruxas à noite nas encruzilhadas, nas torres das igrejas, nos adros, nas covas e nas grutas, invocando o diabo com voz aflitiva.

Lobisomem
Ser misto de homem e besta. À meia noite, depois de transformado em animal, há-de correr sete vales, sete outeiros e sete encruzilhadas e quando acaba o seu fado vai ao mesmo espojeiro e faz-se outra vez homem.

Fradinho da Mão Furada
Entidade pertencente à corte demoníaca, ora dispensa favores e benefícios, ora se mostra hábil na arte de ludibriar e pregar partidas. Para tal entra, durante a noite, através do buraco da fechadura da porta, surpreendendo os mais desprevenidos.

Diabo
Entidade suprema do mal, servido por uma série de génios maléficos, que encarna sob diversas formas antropomórficas. Aparece por vezes com rasgos de generosidade e cavalheirismo, rodeado por uma nuvem de vapores sulfurosos e resinosos, com o fim de arrastar as almas humanas para o caldeirão.

Olharapo
Criatura disforme, mais ou menos monstruosa, aterradora e perigosa, que povoa os mares desconhecidos e terras longínquas. De olhos bem abertos ameaça devorar todos os que ousam aventurar-se na suas paragens.

Sereia
Ser fantástico com cabeça e peito de mulher e o resto do corpo igual ao de um peixe ou ave. Seduz os navegantes pela beleza do seu rosto e pelo mel do seu canto, atraindo-os astuciosamente para o fundo do mar e devorando-os.

Moura Encantada
Figura mítica que habita as nascentes de água, os penedos e penhas guardando tesouros inesgotáveis. Aparece, ora em forma de cobra, que demanda os viandantes para que a desencantem, ora sob a figura de uma gentil donzela com cabelos d’oiro, que promete riquezas àquele que lhe quebrar o fadário.

 

Estreia | 26 outubro 2000 | Teatro Académico de Gil Vicente

Nº de apresentações públicas: 22

2001_Espetáculo Sete Luas

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